"Mundo mundo vasto mundo/ se eu me chamasse Raimundo/ seria uma rima,/ não seria uma solução./ Mundo mundo vasto mundo,/ mais vasto é meu coração" (Drummond)

Mundo Vasto Mundo: é o substrato de qualquer tentativa lírica que me lanço. E também em homenagem ao maior dos poetas. Eu sou Catarina, mas como é sempre bom um sobrenome: Catarina Bussinger . Bem-vindo(a).

(Fonte: dianostalgico, via f-o-t-o-s)

Seção dos Especialistas Poéticos

Separação - Vinicius de Moraes

Voltou-se e mirou-a como se fosse pela última vez, como quem repete um gesto imemorialmente irremediável. No íntimo, preferia não tê-lo feito; mas ao chegar à porta sentiu que nada poderia evitar a reincidência daquela cena tantas vezes contada na história do amor, que é história do mundo. Ela o olhava com um olhar intenso, onde existia uma incompreensão e um anelo, como a pedir-lhe, ao mesmo tempo, que não fosse e que não deixasse de ir, por isso que era tudo impossível entre eles. 

Viu-a assim por um lapso, em sua beleza morena, real mas já se distanciando na penumbra ambiente que era para ele como a luz da memória. Quis emprestar tom natural ao olhar que lhe dava, mas em vão, pois sentia todo o seu ser evaporar-se em direção a ela. Mais tarde lembrar-se-ia não recordar nenhuma cor naquele instante de separação, apesar da lâmpada rosa que sabia estar acesa. Lembrar-se-ia haver-se dito que a ausência de cores é completa em todos os instantes de separação. 

Seus olhares fulguraram por um instante um contra o outro, depois se acariciaram ternamente e, finalmente, se disseram que não havia nada a fazer. Disse-lhe adeus com doçura, virou-se e cerrou, de golpe, a porta sobre si mesmo numa tentativa de seccionar aqueles dois mundos que eram ele e ela. Mas o brusco movimento de fechar prendera-lhe entre as folhas de madeira o espesso tecido da vida, e ele ficou retido, sem se poder mover do lugar, sentindo o pranto formar-se muito longe em seu íntimo e subir em busca de espaço, como um rio que nasce. 

Fechou os olhos, tentando adiantar-se à agonia do momento, mas o fato de sabê-la ali ao lado, e dele separada por imperativos categóricos de suas vidas, não lhe dava forças para desprender-se dela. Sabia que era aquela a sua amada, por quem esperara desde sempre e que por muitos anos buscara em cada mulher, na mais terrível e dolorosa busca. Sabia, também, que o primeiro passo que desse colocaria em movimento sua máquina de viver e ele teria, mesmo como um autômato, de sair, andar, fazer coisas, distanciar-se dela cada vez mais, cada vez mais. E no entanto ali estava, a poucos passos, sua forma feminina que não era nenhuma outra forma feminina, mas a dela, a mulher amada, aquela que ele abençoara com os seus beijos e agasalhara nos instantes do amor de seus corpos. Tentou imaginá-la em sua dolorosa mudez, já envolta em seu espaço próprio, perdida em suas cogitações próprias - um ser desligado dele pelo limite existente entre todas as coisas criadas. 

De súbito, sentindo que ia explodir em lágrimas, correu para a rua e pôs-se a andar sem saber para onde…

Source: John St John Photography
Paixão de estaçãoO moço esbarrou na moça na entrada do metrô. (-Desculpa!- Não foi nada!- Qual o seu nome?- Ana. -João. -Oi, João. -Quer tomar um café qualquer dia desses? Podemos conversar e quem sabe nos beijar… Puxa! Como você é linda! Acho que me apaixonei só de te ver! Acho que quero casar com você!)A moça desceu naquela mesma estação e o moço não teve chance nem de pedir desculpas.
(Catarina Bussinger)

Source: John St John Photography

Paixão de estação
O moço esbarrou na moça na entrada do metrô.
(-Desculpa!
- Não foi nada!
- Qual o seu nome?
- Ana.
-João.
-Oi, João.
-Quer tomar um café qualquer dia desses? Podemos conversar e quem sabe nos beijar… Puxa! Como você é linda! Acho que me apaixonei só de te ver! Acho que quero casar com você!)
A moça desceu naquela mesma estação e o moço não teve chance nem de pedir desculpas.

(Catarina Bussinger)

(Fonte: nyc-subway)

Entre alguns silêncios alternados e alguns olhares mal disfarçados, há amores meio sem saber como se falar.

Entre alguns silêncios alternados e alguns olhares mal disfarçados, há amores meio sem saber como se falar.

(Fonte: floriicultura, via floriicultura)

No esquerdo lado do peito

Encosta teu ouvido

no lado esquerdo do meu peito.

Consegue escutar?

Bate só por ti.

Pode deitar,

usar de travesseiro…

Fazer do meu abraço o teu cobertor,

enquanto eu protejo o teu sonhar.

Quando acordar

ainda estarei aqui.

Então talvez possas me contar

o que teus olhos viram

enquanto estavam fechados.

E quem sabe podemos conversar

sobre o sol ou o mar

ou qualquer outra coisa

que queiras me falar.

Assim talvez eu possa pegar na tua mão

enquanto me contas sobre os pedaços de mundo

onde querias estar.

Quem sabe eu diga que me vou contigo…

Quem sabe eu diga que me levaste contigo

nesse peito do esquerdo lado que só bate por ti. 

(Catarina Bussinger)

Uma pequena nota: minhas tias-avó, por parte de minha mãe, sentadas no quintal de casa. Tia Ruth e Tia Lali moram em Aracaju, uma ao lado da outra, e acredito que nunca tenha sido diferente. Essa fotografia adquiriu um contorno especial para mim, pois me remete às características de cada uma que me são marcantes: a doçura de Tia Ruth (à esquerda) e a gargalhada de Tia Lali (à direita). Não sei se minha mãe se deu conta da beleza do que registrou, o que talvez seja o porquê de ser uma foto tão adorável: foi espontâneo e é na espontaneidade que se sobressaem os traços sutis e os doces hábitos.
Aracaju- Sergipe (2014)

Uma pequena nota: minhas tias-avó, por parte de minha mãe, sentadas no quintal de casa. Tia Ruth e Tia Lali moram em Aracaju, uma ao lado da outra, e acredito que nunca tenha sido diferente. Essa fotografia adquiriu um contorno especial para mim, pois me remete às características de cada uma que me são marcantes: a doçura de Tia Ruth (à esquerda) e a gargalhada de Tia Lali (à direita). Não sei se minha mãe se deu conta da beleza do que registrou, o que talvez seja o porquê de ser uma foto tão adorável: foi espontâneo e é na espontaneidade que se sobressaem os traços sutis e os doces hábitos.

Aracaju- Sergipe (2014)

(Fonte: 27deer, via conjuntar)

Seção dos Especialistas Poéticos

Noções - Cecília Meireles

Entre mim e mim, há vastidões bastantes
para a navegação dos meus desejos afligidos.

Descem pela água minhas naves revestidas de espelhos.
Cada lâmina arrisca um olhar, e investiga o elemento que
a atinge.

Mas, nesta aventura do sonho exposto à correnteza, 
só recolho o gosto infinito das respostas que não se 
encontram.

Virei-me sobre a minha própria existência, e contemplei-a
Minha virtude era esta errância por mares contraditórios, 
e este abandono para além da felicidade e da beleza.

Ó meu Deus, isto é a minha alma:
qualquer coisa que flutua sobre este corpo efêmero e 
precário, 
como o vento largo do oceano sobre a areia passiva e 
inúmera…

(Fonte: floriicultura, via f-o-t-o-s)